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"A velha morreu sozinha".

        Seus olhos sorriam com um deboche de quem tem alguma coisa que os outros não têm. Como quem descobriu algo e não pode falar. Cada curva em sua pele salientava uma verdade vivida. 

        A vida fez com que ela enterrasse cada um de seus amigos e familiares. Aos noventa e nove anos, Elise sempre se perguntou por que a maioria de seus amigos morriam com um leve sorriso e um ar de pureza e leveza em suas feições. Sua resposta demorou a chegar, mas quando veio, foi como um alívio interno de uma criança que, pela primeira vez, deita ao colo da mãe. 
        Deitada ao lado esquerdo de sua cama, Elise lembrou, em tom harmônico, a voz de seu amado. Sua mão esquerda repousava aonde costumava ropousar a mão direita de seu marido, Beto. Sua lembrança foi tão forte que Elise pensou escutar um sussurro de seu companheiro. “Beto, é você, meu amor?”, a resposta veio como um sussurro ao pé do ouvido. Elise ouviu claramente as palavras “Sou eu!”. Ela não quis acreditar no que ouvia, sua pele, enrugada, estava arrepiada em todo o corpo. Elise, então, continuou a perguntar: “Você veio me buscar, meu amor?”. Após dois longos segundos, “Sim, meu...”. Elise não conseguia se concentrar no que estava acontecendo. Jamais havia ouvido vozes e conversado com alguém que não estava ali. “Acredite! Estou aqui, Elise. Afinal, os sonhos também fazem parte da realidade”. Elise escutou em claro e bom tom a voz de Beto. Uma lágrima correu entre os caminhos marcados de sua pele. Elise sorria com toda a felicidade de quem não o escutava há mais de 20 anos. 
        Um piano começou a tocar. Lembrou das músicas que seu pai tocava em sua infância. Foi então que viu uma mão estendida a sua frente e o sorriso e a voz emocionada de sua mãe. “Pode vir, querida, estávamos com saudade”. Elise estendeu a mão e, sozinha em sua cama, deu seu último sorriso em lágrimas. 



Texto produzido no Curso de Formação para Escritores da Casa do Escritor (http://www.ccsnamaskar.com.br).

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