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Último segundo

           No momento de sua morte, Jair pôde escolher qual o segundo, durante todos os segundos, que gostaria de terminar a sua vida. Para escolher o momento exato em que gostaria de viver novamente seu último segundo, ele viajou em sua memória lembrando de todos os segundos de sua vida. Jair lembrou de momentos aleatórios, sem uma sequência de tempo. Sua memória passava mais rápida por momentos em que ele não gostava e mais lenta em momentos felizes.

           Uma carteira caindo no chão, pássaros voando ao céu azul, o mar revolto batendo nas pedras, pessoas caminhando em um grande centro, “aos cem anos e só escreveu um livro” - escutou, um choro e um sorriso de bebê. Jair lembrou do primeiro sorriso de seu filho, a princípio lhe pareceu a cena mais importante de sua vida, mas logo sua memória continuou a jornada sem que ele mesmo percebesse. Folhas caindo ao outono, a pele branca de uma mulher caminhando na praia, tomate, um quadro de Van Gogh, um quadro de Picasso, um quadro de sua mulher. Sua memória caminhou lentamente. Jair lembrou o momento exato em que se apaixonou por Sílvia, sua mulher. Ele não a conhecia, mas estava em frente a um quadro pintado por ela. A obra mostrava uma bela paisagem impressionista, que Jair havia sonhado há alguns anos antes de vê-la. Era o seu sonho transformado em realidade. Novamente, Jair pensou que era o momento de sua vida, mas sua memória trabalhava tão rápido quanto sua percepção. 
          Pato, chocolate, nuvens, “bom dia” - dizia um carteiro, seu cachorro pedindo a bolinha, uma caneta arranhando o papel, o sorriso de seu avô, o carinho de sua avó, um beijo de seu neto, seu carro novo, sua formatura, o enterro de seus avós, o enterro de seus pais, a lágrima de sua mulher, o primeiro choro de seu filho. De tantos choros que a vida lhe deu, este foi um dos que mais lhe rendeu alegria. A chuva caindo, uma cachoeira, um rio, um livro aberto, uma poesia de Neruda, uma música de Piaf, o primeiro olhar de sua mulher. Era uma noite clara, com a lua cheia, Jair andava com amigos pela noite, quando deparou-se com o quadro de Sílvia. Ele ficou paralisado, assustado e encantado com o que estava a sua frente. Jair não acreditava que seu sonho virara realidade. A paisagem era exatamente como em seus sonhos, a ponte, o pássaro, as cores, ele conseguia lembrar até o cheiro de seu sonho. Quando Jair pensou em olhar a assinatura do quadro, uma voz leve e suave adentra em seus ouvidos: “De onde não te conheço”. Jair leva um susto ainda maior, pois parecia reconhecer aquela voz de algum lugar ainda mais fundo que seus sonhos. Sua reação foi apenas falar “Como?” ao mesmo tempo em que virava a cabeça. Quando virou completamente, Sílvia sorria. Jair continuou a falar: “De onde te conheço?”. “Não” - disse Sílvia, que continuou: “De onde não te conheço. É o nome do quadro. Acho bonito pintar alguns lugares que não conheço”. Jair não reconheceu apenas o quadro, mas também o olhar de Sílvia. Este segundo, dentro do olhar de Sílvia, é o que Jair queria levar consigo em seu último segundo, mas as suas lembranças andavam a passos largos. 
          Seus amigos reunidos, uma xícara de café preto, seu cachorro correndo, uma caipirinha, ônibus lotado, um mergulho no mar, um sapato perdido, um carro batido, um abacateiro, a campainha tocando, seu filho saindo de casa, a enfermeira lhe dando remédio, um abraço de sua nora, Paris, um beijo de sua mulher, uma borboleta, arroz e feijão, uma bola quebrando a vidraça, um aperto de mão, o sorriso de sua mãe. Jair lembrou do primeiro sorriso que viu de sua mãe, ao nascer. Jair jamais pensou que conseguiria lembrar do momento de seu nascimento. Ali estava, perdido entre tantas memórias, o sorriso mais confortante e bonito que havia visto em toda a sua vida. Um sorriso acompanhado de lágrimas de felicidade. O segundo mais esperado por sua mãe, talvez seja o seu último segundo. Ele estava convicto de que aquele era seu último segundo. Contudo, no segundo anterior ao seu último segundo, Jair pensou que todos esses segundos não foram planejados por ele. Então, em seu último segundo de lembrança e respiro, apenas sussurrou: “Obrigado”. 



Texto produzido no Curso de Formação para Escritores da Casa do Escritor (http://www.ccsnamaskar.com.br).

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